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Sobre agisjunior

Sou um farmacêutico psicólogo, estudante de psicanálise e aficcionado em construir imagens. Digo construir porque a imagem se monta, se constitui a partir de um olhar individual, precisamente impregnado de tantos outros elementos que a esbarrarem. É essa somatória de elementos que produz o sentido a um olhar.  Passei e passo ainda, grande parte do meu tempo entre substâncias, elementos químicos e vidrarias elaborando e produzindo produtos cosméticos, passo ainda tempos facilitando a arte da elaboração de ideias que podem parecer desconexas, mas que quando bem arranjadas produzem um sentido que muitas vezes liberta.  Como elaborador de ideias preciso que a inquietação me habite e passeie por mim constantemente. É ela me arrasta para a criação, é ela que me faz pensar e elaborar projetos que sempre se materializam no campo da estética.  A fotografia me acompanha desde muito jovem, experimentei desde rolos de filmes com máquinas analógicas, em que a intuição precisava estar vinculada a algum conhecimento técnico, até a era da fotografia digital que demonstra uma certa facilidade, mas que não dispensa e nem recusa um olhar construido por elementos diversos.

Osso

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Parei de sentir
para frente
agora só ressinto
sinto agora

A idade tem disso
deixa tudo aqui
calculado no agora
espremido no resto
de tempo que há

O que foi
foi
e se não foi
não será mais agora
Saudade!

A saudade
dói num osso
esquecido
deixado de lado…

Falo

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Depois de tudo,
após cair a tarde
senti a dor do que não vivi

Sem saber sentir
me despi
e nu fiquei
com olhos fixos,
acesos
assistindo os fatos
me violentarem

Em cada fato
um falo
Em cada falo
uma fala
guardada na dor
disfarçada
da minha ignorância.

Gozei
dores
dissabores
amores…

um passional

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sinto que extrapolei. queimei dias com palavras que ao invés de sentidos, emitiam faíscas. palavras carregadas de veneno indigesto acumulado nas escutas e nos discursos de convencimento. em nada resultou. me desencantei. sofro, eu sei. sei também que atropelo meus pensamentos tentando justificar o castelo que ergui na minha mais pura obstinação. apanho de mim, eu mesmo me flagelo com cipoada espinhosa que forja uma aparência efêmera que só eu não acredito. finjo com maestria olhares benditos, palavras macias, gestos suaves. engano bem. mas não posso entregar os pontos. no meu mais puro intimo, acreditei. acreditei em salvação. acreditei em palavras de efeito. acreditei em promessas desnecessárias que os sons das palavras enfeitavam com uma pseudo verdade. me desfiz. estou esfarelado por dentro. a minha droga sou eu mesmo que produzo incessantemente com minha mente insana que insiste em emitir ideias estapafúrdias, mirabolantes, contraproducentes. cansei de me prometer. mas não posso contar isso para ninguém. funciono movido pela paixão. sou um artista que encena gloriosamente meu espetáculo construído com mentiras. mentiras que serviram para acomodar desilusões. vivo o caos. a beira da catástrofe. a angústia me domina me empurrando para o fim.

não basta saber. mas eu sei que no silêncio do meu pensamento guardado no arquivo mais fundo e muitas vezes inatingível, que o funcionamento passional exige provas cabais para acusar aquele que abastece a fantasia de que existe um salvador para os pobres e oprimidos. o mito talvez nunca será considerado culpado pelo seus defensores na medida em que a constatação da culpa traz pro defensor a penosa cena da destruição da sua própria fantasia e isso só os fortes conseguem suportar. só os fortes conseguem reconhecer e conviver com o engano. e eu que agasalhei esse mito no meu interior. me sinto fraco e impotente, indisponível para derrubar e erguer um novo funcionamento que garanta o abandono da droga paixão. reconstruir é pior que construir. vou enfrentar.

falta

AgisJunior_27

Ainda
que me
faltem
OLHOS
BOCA
DENTES
ficarei
aqui
impávido
sorridente
vacilante
rangendo
dentes
imaginarios
olhando
quadros
pintados
na mente
forjada
materializada
dizendo
frases
que não
OUVI
que não
SENTI
que não
FALEI
Apenas
hei
de ver
um quadro
branco
de brandos
pensamentos
a clamarem
por
sossego.

solidão

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Sinto-me só, ouvi alguém dizer. Procure-se! Vá ao guarda-roupa e se ache naquela roupa estampada que tanto serviu pra chamar atenção, ou então encontre-se numa gaveta do armário do quarto em cartas que você recebeu elogios sobres aquelas noites ternas e quentes de prazer. Procure-se também nos planos que esbaforidamente você fez para fisgar o par que tanto alimentava suas ilusões.  Se depois de tudo isso, você não se encontrar, desista de se procurar por fora.  Vá ao banheiro, ponha-se em frente ao espelho da pia e olhe bem nos seus olhos. Veja o movimento deles, vá descendo, e observe se você já tem bolsas embaixo dos olhos. Suba seu olhar lentamente e mire na sua testa, será que já tem rugas? Desça mais um pouco e olhe o formato do seu nariz. Analise a cor dos seus lábios, veja se ainda são vermelhos e brilhantes. Dê um sorriso pra vocêencontre-se com suas partes. Entenda a força do seu olhar, reconheça os movimentos dos seus lábios ao emitir uma palavra, os movimentos da sua testa ao fazer uma expressão facial.

Se ainda assim você não se encontrar, ou não se reconhecer, você realmente é uma pessoa solitária. O mundo de fora com suas mazelas e exigências tornou-se tão forte e poderoso que você perdeu o fio da meada que lhe levaria até você. Você se desencontrou de si, perdeu a capacidade de se reconhecer e confirmar sua mais importante e presente companhia ao longo de toda vida. Você deixou a imaginação e a fantasia lhe arrastarem da realidade real e aceitou o desafio de viver na realidade virtual, que só existe  pra você, na sua incansável necessidade de completude.

Sinto lhe dizer, mas seus planos deram errado. Você é só. Alias foi somente na barriga da sua mãe, naquele quentinho molhado, que você esteve acompanhado. Quando você foi expulso pela claridade do nascimento você teve que deixar aquela companhia, consequentemente a completude e acabou por  optar por ser só, por caminhar por essas trilhas tortuosas da vida, sozinho e desamparado. Tentando o tempo todo reeditar o estado de completude que a claridade lhe roubou. Foi nessa busca incessante que aconteceu o seu abandono. O desejo de encontrar o outro que lhe completasse suplantou o seu conhecimento, a sua observação sobre si. O tempo passou, você se desprezou, não se observou e acabou se surpreendendo no espelho da pia do banheiro. Sugiro que você se conforme com sua solidão, ou melhor que você se tome como  sua principal companhia, se assuma incondicionalmente. Substitua a fantasia e a imaginação por um espelho onde você possa se olhar profundamente. Procure entender cada marca, cada expressão facial, cada bocejo, cada mordida que você der como parte de um percurso em que você se perdeu. Entenda-se e passe a mão sobre a sua pele do rosto, acaricie o seu fracasso e seja ao invés de SOLITÁRIO, SOLIDÁRIO  com a sua solidão.

eu

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Na solidão
me acho
Passo ao
meu lado
entre escuros
e claros
Me acho
brando
um tanto
desesperado
Ali
perto de mim
abandonado
Comigo
sozinho
passeiam
coisas:
pedra
pau
algodão
doce
Encontro
dentro
de mim
dejetos
restos
fragmentados
do que não
fiz
e quis fazer
do que
fiz
e não quis
fazer
Um emaranhado
teia
fecunda
de restos
mastigados

Foi o tempo
dos pensamentos
presos
freados
Impediu
arrastou
pisou em
desejos
elaborados
Retornados
na ausência
fecunda
dos pensamentos
reciclados
Acordei!
alvo e firme
me deixei
conformado.