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um passional

AgisJunior_65

sinto que extrapolei. queimei dias com palavras que ao invés de sentidos, emitiam faíscas. palavras carregadas de veneno indigesto acumulado nas escutas e nos discursos de convencimento. em nada resultou. me desencantei. sofro, eu sei. sei também que atropelo meus pensamentos tentando justificar o castelo que ergui na minha mais pura obstinação. apanho de mim, eu mesmo me flagelo com cipoada espinhosa que forja uma aparência efêmera que só eu não acredito. finjo com maestria olhares benditos, palavras macias, gestos suaves. engano bem. mas não posso entregar os pontos. no meu mais puro intimo, acreditei. acreditei em salvação. acreditei em palavras de efeito. acreditei em promessas desnecessárias que os sons das palavras enfeitavam com uma pseudo verdade. me desfiz. estou esfarelado por dentro. a minha droga sou eu mesmo que produzo incessantemente com minha mente insana que insiste em emitir ideias estapafúrdias, mirabolantes, contraproducentes. cansei de me prometer. mas não posso contar isso para ninguém. funciono movido pela paixão. sou um artista que encena gloriosamente meu espetáculo construído com mentiras. mentiras que serviram para acomodar desilusões. vivo o caos. a beira da catástrofe. a angústia me domina me empurrando para o fim.

não basta saber. mas eu sei que no silêncio do meu pensamento guardado no arquivo mais fundo e muitas vezes inatingível, que o funcionamento passional exige provas cabais para acusar aquele que abastece a fantasia de que existe um salvador para os pobres e oprimidos. o mito talvez nunca será considerado culpado pelo seus defensores na medida em que a constatação da culpa traz pro defensor a penosa cena da destruição da sua própria fantasia e isso só os fortes conseguem suportar. só os fortes conseguem reconhecer e conviver com o engano. e eu que agasalhei esse mito no meu interior. me sinto fraco e impotente, indisponível para derrubar e erguer um novo funcionamento que garanta o abandono da droga paixão. reconstruir é pior que construir. vou enfrentar.

falta

AgisJunior_27

Ainda
que me
faltem
OLHOS
BOCA
DENTES
ficarei
aqui
impávido
sorridente
vacilante
rangendo
dentes
imaginarios
olhando
quadros
pintados
na mente
forjada
materializada
dizendo
frases
que não
OUVI
que não
SENTI
que não
FALEI
Apenas
hei
de ver
um quadro
branco
de brandos
pensamentos
a clamarem
por
sossego.

solidão

AgisJunior_44

Sinto-me só, ouvi alguém dizer. Procure-se! Vá ao guarda-roupa e se ache naquela roupa estampada que tanto serviu pra chamar atenção, ou então encontre-se numa gaveta do armário do quarto em cartas que você recebeu elogios sobres aquelas noites ternas e quentes de prazer. Procure-se também nos planos que esbaforidamente você fez para fisgar o par que tanto alimentava suas ilusões.  Se depois de tudo isso, você não se encontrar, desista de se procurar por fora.  Vá ao banheiro, ponha-se em frente ao espelho da pia e olhe bem nos seus olhos. Veja o movimento deles, vá descendo, e observe se você já tem bolsas embaixo dos olhos. Suba seu olhar lentamente e mire na sua testa, será que já tem rugas? Desça mais um pouco e olhe o formato do seu nariz. Analise a cor dos seus lábios, veja se ainda são vermelhos e brilhantes. Dê um sorriso pra vocêencontre-se com suas partes. Entenda a força do seu olhar, reconheça os movimentos dos seus lábios ao emitir uma palavra, os movimentos da sua testa ao fazer uma expressão facial.

Se ainda assim você não se encontrar, ou não se reconhecer, você realmente é uma pessoa solitária. O mundo de fora com suas mazelas e exigências tornou-se tão forte e poderoso que você perdeu o fio da meada que lhe levaria até você. Você se desencontrou de si, perdeu a capacidade de se reconhecer e confirmar sua mais importante e presente companhia ao longo de toda vida. Você deixou a imaginação e a fantasia lhe arrastarem da realidade real e aceitou o desafio de viver na realidade virtual, que só existe  pra você, na sua incansável necessidade de completude.

Sinto lhe dizer, mas seus planos deram errado. Você é só. Alias foi somente na barriga da sua mãe, naquele quentinho molhado, que você esteve acompanhado. Quando você foi expulso pela claridade do nascimento você teve que deixar aquela companhia, consequentemente a completude e acabou por  optar por ser só, por caminhar por essas trilhas tortuosas da vida, sozinho e desamparado. Tentando o tempo todo reeditar o estado de completude que a claridade lhe roubou. Foi nessa busca incessante que aconteceu o seu abandono. O desejo de encontrar o outro que lhe completasse suplantou o seu conhecimento, a sua observação sobre si. O tempo passou, você se desprezou, não se observou e acabou se surpreendendo no espelho da pia do banheiro. Sugiro que você se conforme com sua solidão, ou melhor que você se tome como  sua principal companhia, se assuma incondicionalmente. Substitua a fantasia e a imaginação por um espelho onde você possa se olhar profundamente. Procure entender cada marca, cada expressão facial, cada bocejo, cada mordida que você der como parte de um percurso em que você se perdeu. Entenda-se e passe a mão sobre a sua pele do rosto, acaricie o seu fracasso e seja ao invés de SOLITÁRIO, SOLIDÁRIO  com a sua solidão.

eu

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Na solidão
me acho
Passo ao
meu lado
entre escuros
e claros
Me acho
brando
um tanto
desesperado
Ali
perto de mim
abandonado
Comigo
sozinho
passeiam
coisas:
pedra
pau
algodão
doce
Encontro
dentro
de mim
dejetos
restos
fragmentados
do que não
fiz
e quis fazer
do que
fiz
e não quis
fazer
Um emaranhado
teia
fecunda
de restos
mastigados

Foi o tempo
dos pensamentos
presos
freados
Impediu
arrastou
pisou em
desejos
elaborados
Retornados
na ausência
fecunda
dos pensamentos
reciclados
Acordei!
alvo e firme
me deixei
conformado.

passagem

foto_7

Já disse o Poeta “mentiras sinceras me interessam.”(Cazuza)

Sinceridade
falsa
vem de fora
vem dos outros
Desconhecida
nossa
aprendida
insiste
e por amor
resiste
Se instala
intrometida
fala
fala
fala
Não diz nada
da gente que fala
finge a gente
sendo insistente
Aprendida
como A B C
Repetida
como 2 + 2
uma hora
falha
escorrega
se espalha
Virando PLÁSTICO DE VIDRO
Engana
quem ouve
Atrapalha
quem vê
Machuca
quem sente
Sinceridade
falsa
pungente
ela dilacera
o coração
da gente
que mente
mente
mente
Com respostas
tortas
idiotas
são lorotas

Eu tenho pra mim
que desisti
de ser assim
E dói
Dói
porque rói
a mentira
que aprendi
Deixa a
verdade
aparente
indecente
resistente
machucando
gente
que não
entende
que a gente
só é gente
quando
a verdade
da gente
se põe
na frente.

pintada

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Não tive tempo
de te decifrar
Foi como o pó
que se desfez no ar
Foi como a aurora
que brotou na água do mar
acendendo teu olhar
Nos devaneios
pronta
Os olhos pintados,
derramados
com lágrimas
reviradas do sal
da água do mar,
congelou,
Mudou a saia
Mudou a blusa
Mudou o batom
e até o dom se destacou
Mudou o corpo
Mudou o rosto
Mudou o gosto
e até o sorriso imposto
se transformou
O sol da hora
que anos ardeu
arrastou os tempos
das ilusões presas
para lá
Veio cantando
acabou caindo
se pos falando
ate encontrar
o seu lugar
Ela ficou,
Chegou
branda
cativa
alta
impondo cores
amarelo
no azul passado
das águas
que tanto
guardou o seu
olhar.
No amarelo ouro
da aurora,
brilhou
com olhos
faiscantes
sem palavras,
nenhuma
poderia dizê-la.

castigo

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VEM CÁ
VEM PRA CÁ
Me engana
diz que me ama
Traz ÁGUA
pra molhar
a secura
da minha
terra estéril
Sem verde
Aduba meus
ouvidos
com sentidos
cheiros
odores
Quero flores
derramando
pétalas
no queixo
quadrado
deixando o
cheiro
vermelho
encarnado
de carinho
de vento fraco
assoprando
enquanto
caem
indecentes
textos
pra ouvir
Sou pura
mentira
Preciso
que a verdade
saia
de saia
rodada
arrancando
as pegadas
das ilusões
marcadas
com águas de mãe
A mãe foi só ela
As outras
putas
alegres
coloridas
donas
damas
do prazer
que nunca tive
porque
feri
a jura
de que
seria
somente
tua.