Arquivo da tag: arte

segredo

Processed with VSCO with a5 preset

Não quero a cara limpa
descarada
quero os segredos,
os desaparecidos,
rumores de um amor
esquecido
Quero os disfarces
dos encontros proibidos
e a dor da desesperança
de acordar sozinho
Quero o opaco na
minha visão
Pra ter a sorte
de na mansidão
te encontrar no escuro
dos lençóis brancos
demarcados ponto a ponto
desenhados do desejo
que te dediquei.
Quero uma vez mais
o abraço mais quente
e a tua boca ardente
a gritar…
A gritar por mim.
Sei que o amor
vai e vem
quero que o vem
te traga inteira
até a canseira
do meu orgasmo pleno
quero que o vai
te leve longe
e que o meu descanso
renove meu desejo
de te ter covarde,
saliente e indecente
repetindo sempre:
o meu amor não é teu
é meu
e ainda assim
te dou uma fagulha dele
para que acenda em ti
uma luz que te faça
repetir.
E eu repito
incessantemente
esse amor
que me acende.

rubro

agisjunior 31

Auto retrato

Sou rubro
Sou o vermelho
do coração pingado
puro sangue derramado
entre gritos e papéis
trago o rubro medo
que me invadiu
que amassou minhas indigestas
tentativas de acordar
achando que eu era novo…
mais lucido
mais claro
mais transparente
O vento sopra para lá
arrasta a fraca luz
dos meus olhos
Fecho-os mareados
pelo alegre esquecimento
de minhas dores
Me acordo triste,
apalpo as dores
amacio o meu sofrer
sem ver que até
a dor que contei um dia
ficou rubra
encarnada
entupida
pelo vermelho
sequestrado de mim
naquele dia.
Nasci!
e por agora
estou rubro,
até no cinza
dos meus opacos
sentimentos…

castigo

Processed with VSCO with f2 preset

VEM CÁ
VEM PRA CÁ
Me engana
diz que me ama
Traz ÁGUA
pra molhar
a secura
da minha
terra estéril
Sem verde
Aduba meus
ouvidos
com sentidos
cheiros
odores
Quero flores
derramando
pétalas
no queixo
quadrado
deixando o
cheiro
vermelho
encarnado
de carinho
de vento fraco
assoprando
enquanto
caem
indecentes
textos
pra ouvir
Sou pura
mentira
Preciso
que a verdade
saia
de saia
rodada
arrancando
as pegadas
das ilusões
marcadas
com águas de mãe
A mãe foi só ela
As outras
putas
alegres
coloridas
donas
damas
do prazer
que nunca tive
porque
feri
a jura
de que
seria
somente
tua.

em desuso

tanque

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi o tempo que me desgastou.
Já te recebi por aqui,
em mim molhado.
Com a calça suada,
com a blusa melada.
Já senti o sabor dos teus segredos.
O cheiro dos teus beijos já
escorreram pelas minhas águas
virgens e límpidas.
Molhei os restos do teu prazer,
misturei com sabão,
fiz espumas cremosas limparem
teus sonhos e as tuas decepções.
Te deixei alva e nova, recuperada,
pronta pra novas enxurradas.
Limpei como santa clara
os restos de tua carne usada,
revirada e remexida.
Apaguei os cheiros de teus sucos
derramados, as manchas de teu
prazer impregnado.
Desinfectei os odores que guardavas
escondido no fundo dos cestos
exalando os cheiros
das tuas noites de puro gozo.
Revigorei teus instantes,
requalifiquei teu semblante,
renovei teu sabor de agradável maciez.
Te deixei pronta,
para que te sentissem outra vez.
E eu, aqui e agora,
aberto e sozinho,
sentindo teu cheiro que o tempo
com seu desuso impregnou em mim.
Olho pra cima,
espero a água cair
pra escorrer as lembranças
pelo ralo.

Auto do Círio – 2016

Em sua trajetória de 22 anos O Auto do Círio vem confirmar o tripé acadêmico de ensino/pesquisa/ extensão sendo eleito objeto de pesquisa acadêmica em diversos trabalhos desenvolvidos nas instituições de ensino como denso e rico campo de estudos para a produção artístico-cultural da Amazônia.
Concebido como espetáculo itinerante, a céu aberto, multiforme, o Auto, enquanto forma cênica, baseia-se em manifestações ancestrais que ainda hoje sobrevivem em várias culturas e que misturam o popular com o erudito, a oração com a dança, a fé com a alegria, o crente com o ateu, o ribeirinho com o urbano e, assim, reitera o congraçamento e a possibilidade de convivência respeitosa e pacífica dos atores sociaisO Círio de Nazaré em suas diversas manifestações é uma espécie de respiro, de bálsamo, de catarse sobre a velocidade que o ritmo da vida contemporânea impõe a todos nós. (Fonte ufpa.br).

Continuar lendo

falha

foto_14

 

Falha maior que o tempo
alaga os esforços de ausência
brota apresentando um vazio,
roubo do coração sangrado
por um desconhecido ladrão.

Falha, gruta do desassossego
das palavras duras de cansaço
imobilizadas pelo tédio parado
sem pernas, nem sons pra emitir
muda da timidez rubra do retorno

Falha gutural, estrutural
invade a garganta animal
desconexa, irracional, germinal.
Nasceu lá no broto do gozo
produziu leite, molhou de choro o tolo

Afoita a falha se mistura em água vívida
no início assustada como onça desassistida
logo, bem sentida, molhada, nutrida
busca retorno pros primórdios lá do
nascimento da vida

Apressada a falha se fundou no
gozo do outro
sem saber, sentiu
fez crescer, existiu.

a boca dos olhos

foto_38

 

Ele comia com os olhos
– lhe disseram assim.
Os olhos coloriam gestos
apontavam para frente
pintavam quadros ilusórios
estropiados pelos oficios
cansados de sequência.
Criavam cenas faltosas
ausentes e raivosas,
eles comiam com a
fúria apressada do sumiço,
Esses olhos falados
devoravam a paz pra dentro
mastigavam os fragmentos
repetiam na calma escura
do obscuro abandono
a dor da repetição.
Os olhos falados
gritavam imagens inexistentes
tragavam pela íris
reduzidas partículas de amor
saboreavam com o ardor
da pimenta queimante
encarnada de acidez.
Eles cuspiam fogo pelas lágrimas
pingadas no chão
incendiado das marcas
do pequeno amor pisado,
Esses olhos acinzentavam o céu
com seu silêncio profano
sua dor indigesta
insuportável e azeda
Puniam ventos
com laços apertados
arremedavam os nós
fixos, indissolúveis,
e nada diziam.
Esses olhos eram apagados
sem luz nem claridade
com a dor da insaciedade
pelo amor perdido no chão
pisado pela emoção
arrebentado na escuridão.