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ela varia

ela varia

Não liguem
Ela varia
Ela pode ser dia
Uma clara calmaria
Ela pode ser fria
Uma nítida antipatia
Ela até pode ser noite
Uma clara escuridão
Sem mão nem clarão
Fechada e arisca
Ninguém
Se arrisca
Ela belisca, dói
Destrói o dia…
E mesmo sendo noite
Ela parece dia
É isso…
Ela varia
Ela pode ser rio
E até mar com maresia
Ela é poesia
Depende do dia
Ela varia
Ela até faria mar
mas voaria
E perturbaria
um dia de calmaria
Ela varia.

desabafo

poema_1

Sou um cachorro na frente do osso!
Ávido por satisfação
Me engano da completude todos os dias
Ela me sabota e eu me entrego ao engano
Depois…ela celebra sua partida
E eu enganado, com gostinho de vitória
Volto a viver mendigando
Aceitando migalhas.

Ainda não me passou pela cabeça
Que existem outras opções,
A de sentir o sofrimento e
deixar o querer pra lá
Num processo de iluminação repentina
Ele me diz que preciso correr
parar
refletir
até saber sentir que sua ausência
é eterna
Corro pra vida buscando
Ele se esconde de mim
e a cada minuto põe uma máscara diferente
sofro do engano dos que têm esperança
Amanheço querendo desistir
depois de ter sonhado e sentido
um pingo que fosse
de sua promessa cumprida,
mas no próximo instante
ele se apaga como chama
destruida pelo vento
Eu, desolado, prometo
deixar chegar em mim
os sabores do sofrimento.

Osso

agisjunior 10

Parei de sentir
para frente
agora só ressinto
sinto agora

A idade tem disso
deixa tudo aqui
calculado no agora
espremido no resto
de tempo que há

O que foi
foi
e se não foi
não será mais agora
Saudade!

A saudade
dói num osso
esquecido
deixado de lado…

um passional

AgisJunior_65

sinto que extrapolei. queimei dias com palavras que ao invés de sentidos, emitiam faíscas. palavras carregadas de veneno indigesto acumulado nas escutas e nos discursos de convencimento. em nada resultou. me desencantei. sofro, eu sei. sei também que atropelo meus pensamentos tentando justificar o castelo que ergui na minha mais pura obstinação. apanho de mim, eu mesmo me flagelo com cipoada espinhosa que forja uma aparência efêmera que só eu não acredito. finjo com maestria olhares benditos, palavras macias, gestos suaves. engano bem. mas não posso entregar os pontos. no meu mais puro intimo, acreditei. acreditei em salvação. acreditei em palavras de efeito. acreditei em promessas desnecessárias que os sons das palavras enfeitavam com uma pseudo verdade. me desfiz. estou esfarelado por dentro. a minha droga sou eu mesmo que produzo incessantemente com minha mente insana que insiste em emitir ideias estapafúrdias, mirabolantes, contraproducentes. cansei de me prometer. mas não posso contar isso para ninguém. funciono movido pela paixão. sou um artista que encena gloriosamente meu espetáculo construído com mentiras. mentiras que serviram para acomodar desilusões. vivo o caos. a beira da catástrofe. a angústia me domina me empurrando para o fim.

não basta saber. mas eu sei que no silêncio do meu pensamento guardado no arquivo mais fundo e muitas vezes inatingível, que o funcionamento passional exige provas cabais para acusar aquele que abastece a fantasia de que existe um salvador para os pobres e oprimidos. o mito talvez nunca será considerado culpado pelo seus defensores na medida em que a constatação da culpa traz pro defensor a penosa cena da destruição da sua própria fantasia e isso só os fortes conseguem suportar. só os fortes conseguem reconhecer e conviver com o engano. e eu que agasalhei esse mito no meu interior. me sinto fraco e impotente, indisponível para derrubar e erguer um novo funcionamento que garanta o abandono da droga paixão. reconstruir é pior que construir. vou enfrentar.