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velha cadeira

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Uma carreira inteira
deixo escorrer de mim.
Sou fraco de perseverança,
me sento em tempos
que eu queria que ficassem.
Quando eles passam por cima,
no arroubo de uma lembrança,
apanho-os pela ponta.
Sento na velha palha
e recordo os momentos
em que robustos sentimentos
me assaltaram com promessas
de eternidade.
Desperto pelo sopro de um
vento rápido que devolve
as lembranças pro seio das recordações.
Tudo permanece tal qual está agora,
seco, oco, real.
Ficou apenas a força
de um tempo em que a cadeira
compunha com as outras
uma vida farta de possíveis
fantasias.

alegria

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De noite é sempre assim,
a alegria vem me visitar.
Ela sempre chega embriagada
de entusiasmo e excitação,
Hoje ela chegou com as palavras recolhidas,
tímida e silenciosa.
Sentou, cruzou as pernas,
respirou, me olhou profundamente
e começou a falar.
Me contou da fartura do mundo
e me disse que chora com cegueira de seus habitantes,
chora como criança pequena pelos
perdidos olhares que tropeçam para dentro
por não verem o azul que as coisas têm.
Chora pelos pensamentos que pingam no chão
gastos pela repetição do que já foi,
tirando as marcas do que poderia ser melhor.
Ela contou sobre a tristeza das extensões,
das necessidades de prolongamento,
daquilo que era para ser só lá,
naquela hora, e que mesmo assim, nunca basta.
Ela me disse sobre os bobos,
sobre os necessitados do barulho,
sobre os que não se encontram e que
buscam, pelas vias que passam,
vozes que lhe gritem pelo nome,
Ela chorou pelos perdidos olhares suplicantes
por serem notados
para que lhe digam que existem.
Tropeçou em cambaleantes embriagados
de chá e café amargo,
tragados num bar qualquer,
de uma rua aleatória,
onde buscavam dividir pensamentos,
só encontraram a dor de si
a apagada dor mal sentida,
escondida entre falsos sorrisos,
nos armários e gavetas da consciência,
à espreita de um verdugo que passe
e acesse esse material amassado
e velho.
A alegria chorou, porque ri
lhe feria o contentamento.

mãos esquecidas

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Eu chorei por ti,
cada gota do meu líquido íntimo
que pingava em tua intenção,
construiu minha reparação.
Fui lavado por dores refrigeradas
que de tão frias, anestesiaram
futuras recordações.
Elas ficaram adormecidas
inertes e guardadas
conservando sensações
que desisti de sentir.
Não sei dizer de ti
não lembro do teu rosto
não penso em teus toques
não escuto tua voz
nem da tua mão consigo saber.
Nem no mais secreto momento
de faxina de perseguições,
quando passo a limpo meu viver,
encontro teu resíduo.
És a representação oca
de um sentimento apagado
denunciado no esquecimento
nunca lembrado.
Sei que exististe apenas
pelo que me contam de ti.
Verdade! Me contam de ti,
do teu jeito de me pegar
da inflexão da tua voz
da tua forma debochada
de virar a cabeça.
Estiveste tanto em mim
que desapareceste
na mistura da minha realidade,
na minha possibilidade discreta
de indiferença.
Hoje não sei de ti
não sei se foste real
ou se foste um porco seguro
que eu enxerguei quando me afoguei.
Sei apenas que nada teu
ficou, apenas o território vazio
ocupado pela voz de outros
que dizem que exististe.
Nem mesmo a vontade,
tão traidora e profana,
nenhuma vontade
nenhuma
nenhuma
nada,
nada permaneceu
apenas o barulhinho do tempo
que me chocou em ti, longe,
e que se encarregou de te colocar
na boca dos que falam,
que me avisam,
que tu exististe no
inter-texto de um texto
que eu nunca mais li.

a boca dos olhos

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Ele comia com os olhos
– lhe disseram assim.
Os olhos coloriam gestos
apontavam para frente
pintavam quadros ilusórios
estropiados pelos oficios
cansados de sequência.
Criavam cenas faltosas
ausentes e raivosas,
eles comiam com a
fúria apressada do sumiço,
Esses olhos falados
devoravam a paz pra dentro
mastigavam os fragmentos
repetiam na calma escura
do obscuro abandono
a dor da repetição.
Os olhos falados
gritavam imagens inexistentes
tragavam pela íris
reduzidas partículas de amor
saboreavam com o ardor
da pimenta queimante
encarnada de acidez.
Eles cuspiam fogo pelas lágrimas
pingadas no chão
incendiado das marcas
do pequeno amor pisado,
Esses olhos acinzentavam o céu
com seu silêncio profano
sua dor indigesta
insuportável e azeda
Puniam ventos
com laços apertados
arremedavam os nós
fixos, indissolúveis,
e nada diziam.
Esses olhos eram apagados
sem luz nem claridade
com a dor da insaciedade
pelo amor perdido no chão
pisado pela emoção
arrebentado na escuridão.

rosa incandescente

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Tenho bobagens importantes. Disse Clarice Lispector no livro Legião Estrangeira: “Por que publicar o que não presta? Porque o que presta também não presta. Além do mais o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto do modo carinhoso do inacabado, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão.”

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