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falta

AgisJunior_27

Ainda
que me
faltem
OLHOS
BOCA
DENTES
ficarei
aqui
impávido
sorridente
vacilante
rangendo
dentes
imaginarios
olhando
quadros
pintados
na mente
forjada
materializada
dizendo
frases
que não
OUVI
que não
SENTI
que não
FALEI
Apenas
hei
de ver
um quadro
branco
de brandos
pensamentos
a clamarem
por
sossego.

pintada

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Não tive tempo
de te decifrar
Foi como o pó
que se desfez no ar
Foi como a aurora
que brotou na água do mar
acendendo teu olhar
Nos devaneios
pronta
Os olhos pintados,
derramados
com lágrimas
reviradas do sal
da água do mar,
congelou,
Mudou a saia
Mudou a blusa
Mudou o batom
e até o dom se destacou
Mudou o corpo
Mudou o rosto
Mudou o gosto
e até o sorriso imposto
se transformou
O sol da hora
que anos ardeu
arrastou os tempos
das ilusões presas
para lá
Veio cantando
acabou caindo
se pos falando
ate encontrar
o seu lugar
Ela ficou,
Chegou
branda
cativa
alta
impondo cores
amarelo
no azul passado
das águas
que tanto
guardou o seu
olhar.
No amarelo ouro
da aurora,
brilhou
com olhos
faiscantes
sem palavras,
nenhuma
poderia dizê-la.

vultos

Vejo
Vul/tos
Vul/gos
Vul/tos
Passantes
Passados
Passando
Da água
Que pinga
Pin/go
Pin/gado
Pin/gante
Do céu
Escon/dido
Encar/dido
Escal/dante
Na rua
Molh/ada
Ala/gada
Ca/lada
Apress/ada
Do azul
Anil
Que fugiu
Na água
Derra/mada
Transbor/dada
Amada
Desgas/tada
Par/ada
Parada

alegria

foto_59

De noite é sempre assim,
a alegria vem me visitar.
Ela sempre chega embriagada
de entusiasmo e excitação,
Hoje ela chegou com as palavras recolhidas,
tímida e silenciosa.
Sentou, cruzou as pernas,
respirou, me olhou profundamente
e começou a falar.
Me contou da fartura do mundo
e me disse que chora com cegueira de seus habitantes,
chora como criança pequena pelos
perdidos olhares que tropeçam para dentro
por não verem o azul que as coisas têm.
Chora pelos pensamentos que pingam no chão
gastos pela repetição do que já foi,
tirando as marcas do que poderia ser melhor.
Ela contou sobre a tristeza das extensões,
das necessidades de prolongamento,
daquilo que era para ser só lá,
naquela hora, e que mesmo assim, nunca basta.
Ela me disse sobre os bobos,
sobre os necessitados do barulho,
sobre os que não se encontram e que
buscam, pelas vias que passam,
vozes que lhe gritem pelo nome,
Ela chorou pelos perdidos olhares suplicantes
por serem notados
para que lhe digam que existem.
Tropeçou em cambaleantes embriagados
de chá e café amargo,
tragados num bar qualquer,
de uma rua aleatória,
onde buscavam dividir pensamentos,
só encontraram a dor de si
a apagada dor mal sentida,
escondida entre falsos sorrisos,
nos armários e gavetas da consciência,
à espreita de um verdugo que passe
e acesse esse material amassado
e velho.
A alegria chorou, porque ri
lhe feria o contentamento.

engano

foto_13

A vela tremia. Era o vento.
O homem ardia sedento do amor guardado.
Pensamentos soltos vagavam por cima,
viajando pelos misteriosos lugares do
enfraquecido desejo,
disperso pelas mesmas vias, secas e tortas
de antes,
dissipado, entre perdidas misturas,
no caos dos pensamentos soltos.
Alguns amorteciam a fadiga da vida,
faziam afirmações,
atestavam as conveniências.
Outros encontravam-se com pequenas cenas,
ferro elétrico passando saias,
batons vermelhos,
cheiro de perfume francês
misturado a fumaça do cigarro,
música fina, suave do radinho de pilha.
Esse homem existia por dentro,
possuía um mundo secreto
de pitadas de outras cenas,
pequenas e desprezadas cenas,
anunciando a existência de uma vastidão
encoberta pela mentira da vida.
Uma vida forjada, encapada por
marcas e impedimentos.
Ele agora ali, parado,
esperando um sonho para apanhar.
Esperava que uma rajada de vento,
empurrasse um sonho apenas,
aquele que lhe trouxesse o amor.
Aquele amor experimentado uma só vez,
aquele procurado nos cantinhos
dos descaminhos da vida,
os vasculhados pelas rotas,
os caídos e quebrados.
E nem passou uma semana ainda,
o desejo continua sentado,
na cadeira estofada,
cansado de acordos.