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velha cadeira

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Uma carreira inteira
deixo escorrer de mim.
Sou fraco de perseverança,
me sento em tempos
que eu queria que ficassem.
Quando eles passam por cima,
no arroubo de uma lembrança,
apanho-os pela ponta.
Sento na velha palha
e recordo os momentos
em que robustos sentimentos
me assaltaram com promessas
de eternidade.
Desperto pelo sopro de um
vento rápido que devolve
as lembranças pro seio das recordações.
Tudo permanece tal qual está agora,
seco, oco, real.
Ficou apenas a força
de um tempo em que a cadeira
compunha com as outras
uma vida farta de possíveis
fantasias.

a boca dos olhos

foto_38

 

Ele comia com os olhos
– lhe disseram assim.
Os olhos coloriam gestos
apontavam para frente
pintavam quadros ilusórios
estropiados pelos oficios
cansados de sequência.
Criavam cenas faltosas
ausentes e raivosas,
eles comiam com a
fúria apressada do sumiço,
Esses olhos falados
devoravam a paz pra dentro
mastigavam os fragmentos
repetiam na calma escura
do obscuro abandono
a dor da repetição.
Os olhos falados
gritavam imagens inexistentes
tragavam pela íris
reduzidas partículas de amor
saboreavam com o ardor
da pimenta queimante
encarnada de acidez.
Eles cuspiam fogo pelas lágrimas
pingadas no chão
incendiado das marcas
do pequeno amor pisado,
Esses olhos acinzentavam o céu
com seu silêncio profano
sua dor indigesta
insuportável e azeda
Puniam ventos
com laços apertados
arremedavam os nós
fixos, indissolúveis,
e nada diziam.
Esses olhos eram apagados
sem luz nem claridade
com a dor da insaciedade
pelo amor perdido no chão
pisado pela emoção
arrebentado na escuridão.

máscara

foto_7

Aíla da TF

 

Chegou branco
corpo em desalinho
pensamento covarde
sem óleo nos engates
duro como rocha velha
no silêncio, escutou
Primeiro acorde monitorado
corpo reto emoldurado
Segundo acorde pingado
óleo lubrificante besuntado
corpo mole recatado
Terceiro acorde derramado
engate enferrujado ajustado
corpo fluido libertado
Ficou rubro
corpo coito excitado
vermelho sangue exagerado
pelos cantos derramado
O branco virou vermelho
o duro virou molejo
o óleo espirrou desejo
o pensamento virou ensejo
rasgou as grades se liberou
o rosto enrubesceu
a máscara esvaneceu
um outro apareceu
se pôs leve, deixou fluir
íntimo
escorregando no ritmo
liberou o humor do rubor,
dançou,
e rubro se convenceu
que a máscara foi
um sonho acordado
que desapareceu.