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Era lá. Atrás de um azul
com as nuvens brancas ao redor
apontando a mediocridade
escondida pela vida,
que boiava a saudade distante
dos meus planos,
Planos plenos de satisfação,
audaciosos, afetivos, educados e atentos,
eles voltavam fortes e rígidos de rancor
cobrando a responsabilidade de existirem.
Gritavam por terem sido alimentados,
cuidados, acarinhados e abandonados.
Cobravam pelo esquecimento
sentido em suas bocas amarradas
no orgulho e na distração de uma
vida desviada do caminho.
Perseguidor sonhos,
eis de volta, a minha sina
contra o abandono.
Ela vinha atormentada pelo
som das músicas suaves que distraíram
seu destino.
Grandes Castelos foram construídos
e ruíram na ventania do descaso,
arruinaram-se jogados do alto,
sem que pudessem junta-los.
O medo passou a me temer,
tive o retorno da esperança
acordando minha recordação,
cobrando promessas com o dobro da dor
que sentia ao planejar o sossego.
Quero ler os sonhos escritos mais uma vez,
decorar o texto, entender a mensagem.
Preciso reviver os pequenos sonhos quebrados
com os pedaços pontiagudos espetando meu orgulho.
Eles acordaram,
gritaram na escuridão
soprando um feixe de luz tênue e fraco
que refrescaram a minha solidão.
Essa solidão erguida na vã tentativa
de que a companhia pudesse com seu calor,
aplacar o temor do desamparo devastador
que todos insistem em deixar cair.

catarse

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Em mim mora um outro,
alto, altaneiro, petulante,
perseguidor e intrometido,
ele sobrevoa minhas intenções
arrasta planos, destrói possibilidades.
Imita minha voz, se apodera do meu corpo
e me finge tão perfeitamente que até
a mim confunde.
Esse outro, escuso e disfarçado, empurra escadas,
desequilibra pretenções,
põe tudo no fogo, queima, faz brasa vermelha
incandescente
e logo vira cinza preta  voando pelo ar.
Eu cativo, entregue e paralisado me vejo pairar
sobre o que planejei, perco-me no ar, brando
e entregue ao que não sei.
Visito sonhos, apanho alguns que gostei,
torno a saborea-los, sinto suas intensidades,
e logo eles voam no ar e se perdem no tempo.
Vejo algum que prometi amor, aquele amor
que refresca as roupas com o suor da insegurança,
revivo seu corpo, passeio por ele tateando
sua textura macia, leve como a pena, daquela
leveza que só o amor bem sentido pode ter,
sinto o sabor da sua saliva doce como mel de flores,
e o cheiro de seu hálito quente, sinto até
o enrolar de sua lingua na minha procurando
cantos para se acomodar e impedir a vazão de palavras,
sim! as palavras tornam-se desnecessárias,
o amor precisa do olhar, da descrição dos detalhes
do rosto, da sensação tátil dos pêlos arrepiados,
da impressão na memória de sua cor, seu cheiro,
seu sabor.
logo, tudo voa como a cinza em direção a água.
Atropelo-me em pequenas cenas, relâmpagos
de recordações, flashs ligeiros de elementos
que vi mas não senti.
Encontro ferros elétricos de cabo vermelho,
ovo frito na água, cheiro de perfume de ervas,
flores azedas que se chupa, pintinho saindo do ovo,
amor incondicional, beijos de mãe.
De repente, tudo se esvai com vento forte
e as cinzas se espalham levando meus pedaços
para onde eu não sei, me vejo, entre tantos
perdido com os pedaços desarrumados,
espalhados por outros que nunca vi.
Eu lá parado, inerte, sem locomoção,
assistindo minhas partes assediadas,
sem ação, sem opinião, acordo
vejo que ele foi embora com os meus passos,
alto como veio, sem me salvar
sinto o aqui de novo
grande e demarcado pela crueza
do encontro com a realidade.
Eu quero ter lucidez para reconhecer
que algumas coisas é só sensação.

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Não me arrepio com o frio,
sinto a necessidade abrangente
da tua presença passada.
Agora, aqui, dentro das minhas estruturas.
Preciso das temperaturas baixas que
congelem meu dom da recordação,
as que estanquem a fuga das sensações
da tua mão sobre a minha pele,
amassando e apalpando.
Sim! Quero sentir tudo que mereci,
minha negação, meu medo, o arroubo
frouxo da minha resistência
se dissolvendo nos toques dos teus
dedos sobre a minha pele molhada de
desejo.
Dispenso o eco dos sons das palavras
que prometem, quero somente o silêncio
do clima do amor carnal que solicita
pouco, apenas mão e boca.
Preciso somente dessa repetição
incessante e inadequada aos puros,
desse retorno de sentimentos que
cegam de tanto prazer proibido.
Estimo essas obscenas sensações
que me tiram do chão e favorecem
os voos fecundos da imaginação.
Sensações que  levam aos paraísos
perdidos que não ficaram e que se
encontram presos na impressão digital
que pulsa na minha pele sedenta.
Necessito disso, dessas proibições
que as leis castigam, desse generoso
pensamento que brota fazendo o
retorno para onde eu nunca deveria
ter saído.
Pensamentos que congelam em meu corpo
o teu toque profano e acionam o sinal
que dispara as sensações de encontro
a mim,
sempre que a dor do abandono

venha me visitar.

em desuso

tanque

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi o tempo que me desgastou.
Já te recebi por aqui,
em mim molhado.
Com a calça suada,
com a blusa melada.
Já senti o sabor dos teus segredos.
O cheiro dos teus beijos já
escorreram pelas minhas águas
virgens e límpidas.
Molhei os restos do teu prazer,
misturei com sabão,
fiz espumas cremosas limparem
teus sonhos e as tuas decepções.
Te deixei alva e nova, recuperada,
pronta pra novas enxurradas.
Limpei como santa clara
os restos de tua carne usada,
revirada e remexida.
Apaguei os cheiros de teus sucos
derramados, as manchas de teu
prazer impregnado.
Desinfectei os odores que guardavas
escondido no fundo dos cestos
exalando os cheiros
das tuas noites de puro gozo.
Revigorei teus instantes,
requalifiquei teu semblante,
renovei teu sabor de agradável maciez.
Te deixei pronta,
para que te sentissem outra vez.
E eu, aqui e agora,
aberto e sozinho,
sentindo teu cheiro que o tempo
com seu desuso impregnou em mim.
Olho pra cima,
espero a água cair
pra escorrer as lembranças
pelo ralo.

vultos

Vejo
Vul/tos
Vul/gos
Vul/tos
Passantes
Passados
Passando
Da água
Que pinga
Pin/go
Pin/gado
Pin/gante
Do céu
Escon/dido
Encar/dido
Escal/dante
Na rua
Molh/ada
Ala/gada
Ca/lada
Apress/ada
Do azul
Anil
Que fugiu
Na água
Derra/mada
Transbor/dada
Amada
Desgas/tada
Par/ada
Parada

alegria

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De noite é sempre assim,
a alegria vem me visitar.
Ela sempre chega embriagada
de entusiasmo e excitação,
Hoje ela chegou com as palavras recolhidas,
tímida e silenciosa.
Sentou, cruzou as pernas,
respirou, me olhou profundamente
e começou a falar.
Me contou da fartura do mundo
e me disse que chora com cegueira de seus habitantes,
chora como criança pequena pelos
perdidos olhares que tropeçam para dentro
por não verem o azul que as coisas têm.
Chora pelos pensamentos que pingam no chão
gastos pela repetição do que já foi,
tirando as marcas do que poderia ser melhor.
Ela contou sobre a tristeza das extensões,
das necessidades de prolongamento,
daquilo que era para ser só lá,
naquela hora, e que mesmo assim, nunca basta.
Ela me disse sobre os bobos,
sobre os necessitados do barulho,
sobre os que não se encontram e que
buscam, pelas vias que passam,
vozes que lhe gritem pelo nome,
Ela chorou pelos perdidos olhares suplicantes
por serem notados
para que lhe digam que existem.
Tropeçou em cambaleantes embriagados
de chá e café amargo,
tragados num bar qualquer,
de uma rua aleatória,
onde buscavam dividir pensamentos,
só encontraram a dor de si
a apagada dor mal sentida,
escondida entre falsos sorrisos,
nos armários e gavetas da consciência,
à espreita de um verdugo que passe
e acesse esse material amassado
e velho.
A alegria chorou, porque ri
lhe feria o contentamento.

engano

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A vela tremia. Era o vento.
O homem ardia sedento do amor guardado.
Pensamentos soltos vagavam por cima,
viajando pelos misteriosos lugares do
enfraquecido desejo,
disperso pelas mesmas vias, secas e tortas
de antes,
dissipado, entre perdidas misturas,
no caos dos pensamentos soltos.
Alguns amorteciam a fadiga da vida,
faziam afirmações,
atestavam as conveniências.
Outros encontravam-se com pequenas cenas,
ferro elétrico passando saias,
batons vermelhos,
cheiro de perfume francês
misturado a fumaça do cigarro,
música fina, suave do radinho de pilha.
Esse homem existia por dentro,
possuía um mundo secreto
de pitadas de outras cenas,
pequenas e desprezadas cenas,
anunciando a existência de uma vastidão
encoberta pela mentira da vida.
Uma vida forjada, encapada por
marcas e impedimentos.
Ele agora ali, parado,
esperando um sonho para apanhar.
Esperava que uma rajada de vento,
empurrasse um sonho apenas,
aquele que lhe trouxesse o amor.
Aquele amor experimentado uma só vez,
aquele procurado nos cantinhos
dos descaminhos da vida,
os vasculhados pelas rotas,
os caídos e quebrados.
E nem passou uma semana ainda,
o desejo continua sentado,
na cadeira estofada,
cansado de acordos.