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escondido

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eu fico triste com a tristeza
ela não quer ir embora
chega disfarçada e senta
achando que vai ficar
finge que não me olha
(pura indiferença…)
tenta me distrair com livros,
com músicas, com divagações.
Com histórias passadas
ela passa algumas a limpo,
faz retornar cenas
adormecidas, remove
esquecimentos, retorna
com ressentimentos.
(tenho ímpetos de otimismo)
e eu fico pensando que ela
se distraiu e foi-se
mas que nada,
logo ela aparece com a boca
pintada de vermelho e com
unhas que parecem garras
pontiagudas prontas
para espetar um indefeso
eu me encolho, fico tonto
me reviro
tento pensar em piadas
olho para cima, sinto dor
no canto do olho
me engano com minha fisiologia
débil de hoje
e me recordo que ja brinquei
com ela…
Lembro que há tempos atras
fiz ela sofrer. sim!
Eu vi a tristeza chorar
não tive pena dela
ela sofria porque
não me pegava, eu corria
rindo e fazia ela se cansar
até cair exausta
A tristeza se cansava de mim
mas ela esperou,
ela esperou eu brigar
com a minha alegria
ela esperou eu cansar…
E hoje eu estou aqui
com o rosto coberto
disfarçado do mundo
inquieto e indefeso
para ela não
me encontrar.

desabafo

poema_1

Sou um cachorro na frente do osso!
Ávido por satisfação
Me engano da completude todos os dias
Ela me sabota e eu me entrego ao engano
Depois…ela celebra sua partida
E eu enganado, com gostinho de vitória
Volto a viver mendigando
Aceitando migalhas.

Ainda não me passou pela cabeça
Que existem outras opções,
A de sentir o sofrimento e
deixar o querer pra lá
Num processo de iluminação repentina
Ele me diz que preciso correr
parar
refletir
até saber sentir que sua ausência
é eterna
Corro pra vida buscando
Ele se esconde de mim
e a cada minuto põe uma máscara diferente
sofro do engano dos que têm esperança
Amanheço querendo desistir
depois de ter sonhado e sentido
um pingo que fosse
de sua promessa cumprida,
mas no próximo instante
ele se apaga como chama
destruida pelo vento
Eu, desolado, prometo
deixar chegar em mim
os sabores do sofrimento.

Osso

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Parei de sentir
para frente
agora só ressinto
sinto agora

A idade tem disso
deixa tudo aqui
calculado no agora
espremido no resto
de tempo que há

O que foi
foi
e se não foi
não será mais agora
Saudade!

A saudade
dói num osso
esquecido
deixado de lado…

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Era lá. Atrás de um azul
com as nuvens brancas ao redor
apontando a mediocridade
escondida pela vida,
que boiava a saudade distante
dos meus planos,
Planos plenos de satisfação,
audaciosos, afetivos, educados e atentos,
eles voltavam fortes e rígidos de rancor
cobrando a responsabilidade de existirem.
Gritavam por terem sido alimentados,
cuidados, acarinhados e abandonados.
Cobravam pelo esquecimento
sentido em suas bocas amarradas
no orgulho e na distração de uma
vida desviada do caminho.
Perseguidor sonhos,
eis de volta, a minha sina
contra o abandono.
Ela vinha atormentada pelo
som das músicas suaves que distraíram
seu destino.
Grandes Castelos foram construídos
e ruíram na ventania do descaso,
arruinaram-se jogados do alto,
sem que pudessem junta-los.
O medo passou a me temer,
tive o retorno da esperança
acordando minha recordação,
cobrando promessas com o dobro da dor
que sentia ao planejar o sossego.
Quero ler os sonhos escritos mais uma vez,
decorar o texto, entender a mensagem.
Preciso reviver os pequenos sonhos quebrados
com os pedaços pontiagudos espetando meu orgulho.
Eles acordaram,
gritaram na escuridão
soprando um feixe de luz tênue e fraco
que refrescaram a minha solidão.
Essa solidão erguida na vã tentativa
de que a companhia pudesse com seu calor,
aplacar o temor do desamparo devastador
que todos insistem em deixar cair.

catarse

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Em mim mora um outro,
alto, altaneiro, petulante,
perseguidor e intrometido,
ele sobrevoa minhas intenções
arrasta planos, destrói possibilidades.
Imita minha voz, se apodera do meu corpo
e me finge tão perfeitamente que até
a mim confunde.
Esse outro, escuso e disfarçado, empurra escadas,
desequilibra pretenções,
põe tudo no fogo, queima, faz brasa vermelha
incandescente
e logo vira cinza preta  voando pelo ar.
Eu cativo, entregue e paralisado me vejo pairar
sobre o que planejei, perco-me no ar, brando
e entregue ao que não sei.
Visito sonhos, apanho alguns que gostei,
torno a saborea-los, sinto suas intensidades,
e logo eles voam no ar e se perdem no tempo.
Vejo algum que prometi amor, aquele amor
que refresca as roupas com o suor da insegurança,
revivo seu corpo, passeio por ele tateando
sua textura macia, leve como a pena, daquela
leveza que só o amor bem sentido pode ter,
sinto o sabor da sua saliva doce como mel de flores,
e o cheiro de seu hálito quente, sinto até
o enrolar de sua lingua na minha procurando
cantos para se acomodar e impedir a vazão de palavras,
sim! as palavras tornam-se desnecessárias,
o amor precisa do olhar, da descrição dos detalhes
do rosto, da sensação tátil dos pêlos arrepiados,
da impressão na memória de sua cor, seu cheiro,
seu sabor.
logo, tudo voa como a cinza em direção a água.
Atropelo-me em pequenas cenas, relâmpagos
de recordações, flashs ligeiros de elementos
que vi mas não senti.
Encontro ferros elétricos de cabo vermelho,
ovo frito na água, cheiro de perfume de ervas,
flores azedas que se chupa, pintinho saindo do ovo,
amor incondicional, beijos de mãe.
De repente, tudo se esvai com vento forte
e as cinzas se espalham levando meus pedaços
para onde eu não sei, me vejo, entre tantos
perdido com os pedaços desarrumados,
espalhados por outros que nunca vi.
Eu lá parado, inerte, sem locomoção,
assistindo minhas partes assediadas,
sem ação, sem opinião, acordo
vejo que ele foi embora com os meus passos,
alto como veio, sem me salvar
sinto o aqui de novo
grande e demarcado pela crueza
do encontro com a realidade.
Eu quero ter lucidez para reconhecer
que algumas coisas é só sensação.