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mãos esquecidas

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Eu chorei por ti,
cada gota do meu líquido íntimo
que pingava em tua intenção,
construiu minha reparação.
Fui lavado por dores refrigeradas
que de tão frias, anestesiaram
futuras recordações.
Elas ficaram adormecidas
inertes e guardadas
conservando sensações
que desisti de sentir.
Não sei dizer de ti
não lembro do teu rosto
não penso em teus toques
não escuto tua voz
nem da tua mão consigo saber.
Nem no mais secreto momento
de faxina de perseguições,
quando passo a limpo meu viver,
encontro teu resíduo.
És a representação oca
de um sentimento apagado
denunciado no esquecimento
nunca lembrado.
Sei que exististe apenas
pelo que me contam de ti.
Verdade! Me contam de ti,
do teu jeito de me pegar
da inflexão da tua voz
da tua forma debochada
de virar a cabeça.
Estiveste tanto em mim
que desapareceste
na mistura da minha realidade,
na minha possibilidade discreta
de indiferença.
Hoje não sei de ti
não sei se foste real
ou se foste um porco seguro
que eu enxerguei quando me afoguei.
Sei apenas que nada teu
ficou, apenas o território vazio
ocupado pela voz de outros
que dizem que exististe.
Nem mesmo a vontade,
tão traidora e profana,
nenhuma vontade
nenhuma
nenhuma
nada,
nada permaneceu
apenas o barulhinho do tempo
que me chocou em ti, longe,
e que se encarregou de te colocar
na boca dos que falam,
que me avisam,
que tu exististe no
inter-texto de um texto
que eu nunca mais li.

confissão

Eu escrevo  por amor
amor que sinto, antes por mim
Eu escrevo para desafogar residuos desgastados
pelo tempo que me flagelou
Eu escrevo pelo que senti
pelo que sinto e o que ainda sentirei
Eu escrevo para reviver, para reencontrar
para repisar
Eu escrevo nas minhas alegrias fáceis
nas minhas tristezas difíceis
Eu escrevo para me libertar de sentimentos atropelados
me encontrar comigo e me enxugar do pranto da covardia

Quando me molhei as águas eram brandas
calmas e acolhedoras
Quando me molhei depois fui encontrando
tempestades opulentas, impossíveis de contornar
Me salvei segurando um pau que me arrastou
e que me fez entender que é possível sim
viver

Viver, eis que chega a hora
hora negada, adiada, procrastinada
Hora necessária, mas temida
Hora desejada, mas recusada
Hora da vida que encerra em si coragem, destemor e bravura.
Sou bravo por ultrapassar a vida
Sou bravo por olhar a vida, por admirá-la
Sou bravo, mais que tudo por enfrenta-la
com sentimentos confortáveis
com a certeza de que as incertezas precisam fecundar
pois, só assim o caminho se abrira.